sexta-feira, 12 de abril de 2019

O nosso “criar”


Quase nunca falamos sobre sensibilidade, percepção, criatividade, imaginação, né? A resenha de hoje tenta resumir tudo isso (com adaptações ao blog). Como falei, a partir do Mestrado em Comunicação e Indústria Criativa, estamos produzindo resenhas. Algumas, vou compartilhar aqui. Esta também foi produzida na disciplina de Linguagem, Comunicação e Indústria Criativa.



A resenha dos dois primeiros capítulos do livro Criatividade e Processos de Criação, de Fayga Ostrower, uma artista plástica que nasceu na Polônia, vai tratar do Potencial (ser consciente-sensível-cultural, memória, associações, falar, simbolizar, formas simbólicas e ordenações interiores, potencial criador e tensão psíquica) e Materialidade e Imaginação Criativa (imaginação específica, materialidade, linguagem, elaboração, ampliação do imaginar, propostas culturais, confins do possível e formar e transformar).


POTENCIAL:
Criar é, basicamente, formar. “Nessa busca de ordenações e de significados reside a profunda motivação humana de criar”. O homem cria porque precisa, não simplesmente porque gosta ou quer. Apesar disso, a autora refere que os processos de criação ocorrem no âmbito da intuição. Com certeza, o livro apresenta uma inferência pertinente quanto aos seres humanos: “a percepção de si mesmo dentro do agir é um aspecto relevante que distingue a criatividade humana”. Isso afeta o nosso mundo, a nossa cultura e nós (os homens). Foi assim que o homem passou a pensar em soluções para problemas e o melhor: aflorou a capacidade de antever certos problemas. “Daí podermos falar da intencionalidade da ação humana”, diz Fayga.


No capítulo primeiro, ela traz tópicos que se relacionam aos comportamentos criativos do homem ou que são essenciais no processo criador, vejamos: 1) SER CONSCIENTE-SENSÍVEL-CULTURAL é estar movido por algo mais utilitário, sem abrir mão do estético. “Não há, para o ser humano, um desenvolvimento biológico que possa ocorrer independente do cultural”. 2) SER SENSÍVEL, tratando, no texto, a sensibilidade como patrimônio de todo ser humano. A sensibilidade seria o inconsciente somada à percepção de mundo. “Ela chega de modo articulado, isto é, chega em formas organizadas. É a nossa percepção”. 3) SER CULTURAL, onde o que é transmitido é a experiência que se gera. 4) SER CONSCIENTE: ao tornar-se consciente de sua existência individual, o homem também conscientiza-se de sua existência social. 5) MEMÓRIA: ao homem, torna-se possível interligar o ontem ao amanhã. 6) ASSOCIAÇÕES:  compõe a essência de nosso mundo imaginativo. Evocamos experiências anteriores com todo um sentimento de vida. “As associações nos levam para o mundo da fantasia”. 7) FALAR/SIMBOLIZAR, tratando que grande parte das associações liga-se à fala (mesmo que silenciosa). “Assim, cada um de nós pensa e imagina dentro dos termos de sua língua, isto é, dentro das propostas de sua cultura”. Importante destacar a questão do signo e símbolo (signo, uma palavra, exemplo, uma mão, símbolo, um rapaz pedindo a mão da namorada em casamento). 8) FORMAS SIMBÓLICAS E ORDENAÇÕES INTERIORES, ou seja, mesmo que a fala seja de maior importância, as palavras não são a única forma de comunicar conteúdos nem são elas o único modo de comunicação simbólica. “Se a fala representa um modo de ordenar, o comportamento também é ordenação”.

Os dois e últimos itens (9 e 10), são o POTENCIAL CRIADOR e a TENSÃO PSÍQUICA. Para a autora o potencial criador é um fenômeno de ordem mais geral, menos específica do que os processos de criação através dos quais o potencial se realiza. Cíclico, o potencial criador é construção e destruição, ou seja, tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. O potencial criador surge a partir do ser sensível- cultural-consciente do homem e se faz presente em múltiplos caminhos de nossas realidades vividas. Salutar saber que ele nunca se esgota, tem sempre possibilidades de ampliação. Por fim, a tensão psíquica, é a responsável por nos reabastecer  nos próprios processos. “O conflito é condição de crescimento”. Para Fayga, criar representa uma intensificação do viver. O ser humano em momento de criação articula-se em níveis de consciência mais elevados e mais complexos. Relacionamos aqui Florida (2011) o qual fala sobre o éthos criativo.

Não é de se espantar que o éthos criativo seja tão distinto do éthos conformista do passado. Muitas vezes, o trabalho criativo é claramente subversivo, pois abala modelos mentais e padrões de vida correntes. Mesmo ao criador ele pode parecer subversivo e perturbador. De acordo com uma famosa definição de criatividade, este é o “processo de destruir uma gestalt em prol de outra melhor”. Para o economista Joseph Schumpter, “o constante vendaval de destruição criativa” era a essência do capitalismo (FLORIDA, 2011, p.31).  



MATERIALIDADE E IMAGINAÇÃO CRIATIVA:

O homem, segundo Fayga, elabora seu potencial criador através do trabalho. O trabalho é visto como processo criativo. Para ela, a arte ficaria “morta”, se os artistas não pudessem encarar o fazer artístico como trabalho. É um fazer intencional necessário, ampliando em nós a capacidade de viver e garantindo produtos para a sociedade. Referimos Lipovetsky; Serroy (2015): “O capitalismo artista é esse sistema que produz em grande escala bens e serviços com fins comerciais, mas impregnados de um componente estético emocional que utiliza a criatividade artística tendo em vista a estimulação do consumo mercantil e do divertimento de massa”.


Fayga pontua, em seu livro, os seguintes tópicos: 1) IMAGINAÇÃO ESPECÍFICA, quando a imaginação criativa pode vincular-se à especificidade de uma matéria em cada campo de trabalho. Para a autora, o pensar só poderá tornar-se imaginativo através da concretização de uma matéria, sem o que não passaria de um “divagar descompromissado”, definiu. 2) MATERIALIDADE/LINGUAGEM: remetendo a tudo que está sendo formado e transformado. “A materialidade não é, portanto, um fato meramente físico mesmo quando sua matéria o é”. 3) ELABORAÇÃO, sendo uma forma importante de ordenar simbolicamente para o pensamento imaginativo. “Daí não se conclui que a linguagem em si seja subjetiva. Ela é objetivada como ordenação essencial de uma materialidade”. 4) AMPLIAÇÃO DO IMAGINAR, como necessário para ampliar a criatividade. É preciso distanciar-se das nossas especialidades. 5) PROPOSTAS CULTURAIS, indicando certas possibilidades do contexto cultural. 6) CONFINS DO POSSÍVEL, sendo a materialidade a matéria com suas qualificações e seus compromissos culturais. “Não são confins fixos nem permanentes. Contudo, constituem a cada momento o ponto de referência para a criação”. 7) FORMAR E TRANSFORMAR: soa redundante, mas Fayga é clara em dizer que formar é transformar.



ANÁLISE CRÍTICA E CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Fayga usa seu olhar de artista para escrever a obra. Mas, não possui uma linguagem extremamente poética e surrealista quanto à arte, a criação e o mercado. Ao contrário, estabelece relações que permitem vislumbrarmos o processo que compreende desde a criação até a comercialização. Situa o leitor no contexto da criação de forma geral de maneira sucinta e de fácil leitura, pondo-nos a refletir e partir para algumas problematizações:
a) A sensibilidade é um patrimônio de todos os seres humanos e a percepção é a elaboração mental das sensações;
b) O homem é capaz de conceber os componentes de uma experiência (isso nos torna especiais);
c) O conflito é importante e a criatividade pode ser tratada como algo “exercitável”;
d) O ato criador abrange a nossa capacidade de compreender, tendo o fator cultural como cenário;
e) Enquanto ser criativo, integrado às Indústrias Criativas, como nosso processo criativo está situado? Atende o estético, o funcional?


Lendo Fayga é possível reforçar aquela célebre e clichê frase de que o trabalho dignifica o homem (na verdade, pode ser, “o trabalho significa o homem”). Acredita-se então, que estar ligado às possibilidades específicas da matéria permite sim alcançar bons resultados na profissão, porém, ficar centrado exclusivamente nas especificidades que constroem nosso dia a dia, pode ocasionar um esvaziamento no sentido da criatividade. Este ponto seria um dos fundamentais da leitura, que, de certa forma, mais preocupa. Na comunicação, por exemplo, a autora fez um parêntese para dizer que “se transformou em meros meios sem fins, sem finalidades outras do que comerciais”.


Na leitura, é impossível não estar, a todo o momento, relacionando a criatividade com a inovação em nossos processos/produtos, a partir da premissa de que a inovação é a externalização da criatividade. Com nossos PDI’s, transformaremos realidades, resolveremos problemas, e isso tudo advém de um momento criador que foi sendo moldado e aperfeiçoado.


Recomenda-se ler Fayga, assim como conhecer a sua história e além disso, acreditar em uma arte que é o resultado do que somos, diante da realidade em que vivemos. Fayga foi pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora. Ela chegou ao Rio de Janeiro em 1934. Cursou Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Nasceu em 1920 em Lodz (Polônia) e faleceu no Rio de Janeiro em 2001. Como estudiosa da arte, passa conceitos que corroboram a arte como processo delicado, que contempla etapas invisíveis para muitas pessoas, por outro lado, faz-nos apaixonar pelo tema, por tratá-lo com simplicidade, leveza e noções práticas, mostrando que sim, mesmo sendo artista, é preciso estar ancorado na realidade.


Texto resenhado: 
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 21ª Ed.- Petrópolis, Vozes, 2007. 


Referências:

Instituto Fayga Ostrower. Disponível em https://faygaostrower.org.br/a-artista/biografia-resumida. Acesso em 08 de abril de 2019.

FLORIDA, Richard. A Ascenção da Classe Criativa. Porto Alegre: L&PM, 2011.

LIPOVETSKY, G. & SERROY, J. A estetização do mundo. Viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das letras, 2015.







segunda-feira, 1 de abril de 2019

Indústrias Criativas: um campo fecundo



Mês de abril. A última postagem nos textos foi feita em janeiro. Não é desatenção, muito menos preguiça. É a correria da vida moderna. Dia 14 de março iniciei o Mestrado em Comunicação e Indústria Criativa pela UNIPAMPA (São Borja). Um sonho se realizando, frente à necessidade de aprendizagem neste mundo hipermoderno, que nos exige conhecimento para superar os obstáculos e atrocidades que estamos vendo por aí. Na disciplina de Linguagem, Comunicação e Indústria Criativa, produziremos resenhas. A primeira vou tentar compartilhar aqui (com adaptações ao blog).

O texto Indústria Criativa: definição, limites e possibilidades, traz uma abordagem geral acerca do fenômeno das Indústrias Criativas, trata da similaridade e diferença entre as Indústrias Criativas e as Culturais e também expõe as possibilidades de investigações nesta área, um campo fecundo, conforme os autores. Ao longo das seções dos textos, encontramos quatro componentes principais destas indústrias: a criatividade como elemento central; a carga de sentidos dos objetos; a transformação em propriedade intelectual e consequentemente em valor econômico dos produtos e a convergência entre artes, negócios e tecnologia. Assim, agrupam-se as características das Indústrias Criativas em três blocos: forma de produção (criatividade, valorização da arte pela arte, uso intenso de tecnologias, uso de equipes polivalentes); características do produto (variedade infinita, diferenciação vertical e perenidade); e características do consumo (consumo de artefatos de cultura, reconstrução mercadológica do consumidor e a instabilidade na demanda). 

Os autores transitam por questões iniciais, como a evolução da humanidade e conceitos básicos do que são estas indústrias, bem como, presenteiam o leitor com reflexões que envolvem o crescimento da Indústria Criativa, as mudanças econômicas, culturais e sociais, a inovação (não só tecnológica), os recursos humanos e o mercado (falando até mesmo dos conflitos que surgem neste contexto).

Foram tratadas as diferenças e semelhanças entre alguns conceitos próximos ao de Indústrias Criativas, a saber: Indústrias de Entretenimento, Indústrias de Conteúdo, Indústrias Culturais e Indústrias de Copyright.  Em todos, são mencionados o caráter imaterial dos bens culturais, a sua intangibilidade, o seu caráter simbólico e a necessidade das redes sociais.

A importância do texto está, basicamente, em mostrar que as IC são uma atividade promissora, reafirmando, mesmo que indiretamente, que nós, profissionais da área da comunicação, podemos melhorá-la na medida em que forem realizados mais estudos e experiências. Uma das sugestões, na conclusão, inclusive, são os estudos de caso sobre o relacionamento, às vezes, conflituoso, entre as dimensões comerciais e artísticas da condução de negócios nas Indústrias Criativas. 

Para os ligados em Comunicação, ambiente organizacional, criatividade e pesquisa, recomenda-se a leitura! Para quem não é da área, mas pode adquirir mais conhecimento, também é uma boa pedida. O texto é interessante sob vários aspectos. O primeiro, por conseguir abordar de forma clara o conceito de Indústria Criativa, apresentando algumas características e trazendo-nos várias definições. O segundo, em fazer o leitor pensar na sua própria história no mundo. Ou seja, em que momento deixamos de ser uma sociedade materialista para pós-materialista? O terceiro em nos aproximar de vários autores, possibilitando afinidades com os mesmos. O quarto por proporcionar uma reflexão a respeito de como nosso fazer profissional está atrelado à questão criativa, levando em conta o viés econômico e inovador. E por último, ele é capaz de provocar muita inquietação e preocupação: o conceito de Indústria Criativa surgiu em 1990 na Austrália, mas, foi na Inglaterra que ocorreu um mapeamento das mesmas surgindo, até mesmo, um Ministério das Indústrias Criativas. E no Brasil, como ficamos diante destes anos de atraso? Engatinha-se, por exemplo, na cultura, com a falta de uma política de Estado e com baixos investimentos. A julgar pelos benefícios que a inovação traz à economia, faz-se necessário ampliar políticas.

Para as organizações, é uma leitura que fala, diretamente, no capital humano. Ou seja, os autores relacionam a Indústria Criativa ao indivíduo. Na sociedade do conhecimento, o reconhecimento é a quem produz. O trabalhador quer viver com autonomia e felicidade, trocando saberes com outras pessoas. Florida (2011) comenta que os profissionais criativos vivem sob valores como a individualidade, diversidade e abertura. O mesmo destaca que os indivíduos estão afastando-se de comportamentos tradicionais, controlando, de forma integral, a própria vida.


Bendassolli, junto dos colegas Thomaz Wood Jr., Charles Kirschbaum e Miguel Pena e Cunha, aborda as Indústrias Criativas e Culturais, demonstrando as poucas publicações em Estudos Organizacionais destes temas, sugestionando, então, mais trabalhos que avaliem aspectos de gestão em Indústrias Criativas, como formulação e realização da estratégia, modelos de gestão e gestão de recursos humanos. 



 O texto resenhado foi:

BENDASSOLLI, P.; JR. WOOD, T.; KIRSCHBAUM, C.; PINA e CUNHA, M. Indústrias criativas: definição, limites e possibilidades. RAE, v.49, n,1. São Paulo: jan/mar. 2009


sábado, 26 de janeiro de 2019

Kiss 6 anos: o silêncio me respondeu


Era para ser um domingo qualquer. Acordar com o barulho da mãe botando os pratos na mesa depois de uma noite de festa, fazer uma pipoca de tarde, encilhar o mate. De noite, dar uma volta com as gurias. Comer algo bem calórico para começar a semana de dieta.

Naquele domingo, fechei os olhos muitas vezes. Não adiantava.  Eu estava ali. Choros, gente aérea, caixões lado a lado, comida chegando, flashes da Imprensa, religiosos e profissionais ajudando, abraços demorados. Os mais demorados que já vi. As pessoas dividiam-se entre seus celulares e entre os estranhos que já não eram estranhos, a conexão tomou conta do lugar. Em um caixão, um menino, o pai ao lado. Tinha o olhar perdido e as mãos em oração. A assistente social lhe explicava algo. Logo ali, um grupo de familiares consolando uma mãe. Não era choro que vinha dela, era uma dor que abraçava o lugar. Escorei na grade de contenção. Lá de dentro do ginásio, saía mais um caixão. Impossível descrever uma tragédia assim, se não por fragmentos, alguns detalhes, alguns delírios.

No domingo de manhã, quando a tragédia começava a ganhar o planeta, pedi a um amigo em comum para bater no apartamento da Vanessa. O silêncio foi a nossa resposta. Eu sabia que seria, mas a gente não acredita. Este silêncio tomou conta do domingo, mesmo em meio ao barulho de helicópteros, ambulâncias, carros, choro, gritos. Muita gente já estava com o coração silenciado, com a mente preparada. Mas seguiam como eu: esperando encontrar. Afinal, os destinos são tão complexos, que podia ter ocorrido do “meu filho resolveu não sair, ficou na casa dos amigos e não atende o celular”; “minha filha deve estar no hospital”; “meu amigo, de repente, não tinha entrado ainda na boate, logo vai entrar em contato comigo”. Celulares que nunca mais atenderam, luzes de um visor que piscaram sem esperança.  

Cheguei de volta a Santiago com a comitiva da URI na segunda-feira em torno das 5h. Senti vontade de nunca mais dormir. De rasgar todos os jornais porque não queria ler aquilo. Fui no velório da minha amiga que há pouco mais de 24 horas estava sob as luzes coloridas da noite, envolvida pelo dom da vida. Fui para casa olhando o sol nascer, a cidade acordar, as pessoas pegarem seus rumos. O universo emanava outra energia.

Parece que o mundo deu uma pausa até as pessoas entenderem o que realmente ocorreu. Até conhecermos os heróis da noite, foram dias conferindo reportagens, assistindo vídeos, ouvindo fatos. Até sabermos quem ficara ferido, quem faleceu, também demorou. O que veio de imediato foi a falta de esperança. O choro sem solução. A cabeça que balança sem acreditar. Naquela semana, surgiam listas. Eram os nomes atualizados. Nomes que certamente um dia estiveram no listão de um vestibular e em tantas listas que nos fazem felizes.

Depois, falou-se em impunidade. Daí doeu. Em contraste com os rostos jovens, que carregavam o mundo no semblante, as imagens e detalhes de quem não se preocupou o suficiente, de quem poderia evitar. Seguiram-se entrevistas, análises, pesquisas. Seguiu-se a vida. Santa Maria provocou um outro olhar. As boates do país passaram a receber  fiscalização (hoje já não sei como está).

A história ganhou novos capítulos para muitos. Só que aquela noite nunca mais acabou. O ursinho no túmulo, o quarto vazio do filho, a mesa do jantar incompleta, o porta retrato traduzindo saudade. A foto com a toga não aconteceu; o sonho de comprar o carrinho para dar uma ‘banda’ nunca chegou; a viagem para o exterior não foi programada; o próximo sábado para uma nova junção não veio; o ‘Brahma’ teve que esperar; o trabalho ou estágio da segunda-feira não teve ponto; a bolinha verde do Facebook não mais apareceu; a música nunca mais tocou.

O que ficou com a Kiss? As promessas de que viveríamos melhor? Amamos o próximo? Temos compaixão? E empatia? Estamos tendo um dia bem aproveitado? Cooperamos com colegas de trabalho e convivemos com os familiares e amigos? Fica na consciência de cada um porque cada um sabe de suas escolhas, de suas dores, de suas alegrias, cada um é dono de si e possui as suas vontades e possibilidades. Possibilidades! Para uns, a vida não foi mais possível, nós, temos a cada dia a chance de escolher, acertar, errar, tentar.

Me tornei mais humana, mais sensata, depois deste dia sem fim. Uma parte de mim ainda está no 27 de janeiro. Quero deixar esta parte lá. Esta parte está sempre como aquele dia: esperando encontrar. Resiliência, consolo, esperança,  a todos os familiares, que precisam muito continuar.  

Vanessa, eu e Yanna

*Morei por 10 anos em Santa Maria. Foi onde me formei, onde tive muitas experiências. Precisava fazer este relato/depoimento sobre o 27 de janeiro de 2013. Acredito que, junto a tantos outros textos e homenagens, seja uma forma de memória e de alerta  para que ‘Nunca mais se Repita!’. 


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Dica de leitura: Tecendo a Vida em Contos e Crônicas


Quando nos encontramos com amigos e familiares e passamos a relembrar as histórias da infância, impossível o momento não terminar em muita risada. Furtar algo da geladeira, inventar uma mentirinha aos pais, subir em um local proibido. Travessuras que na época eram terríveis em nossa cabeça infantil. Hoje, ao vermos desvios em verbas públicas, assédios, mortes violentas, percebemos que as histórias que ficaram para trás são a marca da inocência, deixando muita saudade e sorrisos. O livro de Dirceu Luiz Alberti, professor universitário, traz passagens cômicas e empolgantes da infância, em que tu fica pensando: qual desfecho isso terá?

O Tecendo a Vida em Contos e Crônicas, lançado em novembro na Feira do Livro de Santiago, estava na minha fila (fila de leitura e de comida são boas). Li ele ontem e asseguro a leveza e simplicidade da obra, fugindo de linguagem técnica ou rebuscada. É como se estivéssemos numa roda de conversa num domingo, tomando uma caipirinha, fazendo aquele churrasquinho e ouvindo boas histórias.

As passagens engraçadas da infância denotam uma harmonia familiar e uma afetividade intensa. Mostra como era possível trabalhar, ter disciplina e brincar. A parte do seminário me emocionou, pois, apesar do rigor e exigências, sei que é uma fase de muita amizade e direcionamento profissional e pessoal. As histórias enquanto professor da URI (onde também trabalhei por seis anos) demonstram que a docência é cheia de desafios, encantos, problemas, risos. Já os textos relativos à natureza descrevem algo que é muito superior a nós. Penso como o professor: a natureza é a protagonista do universo. É uma perfeição. O vento, os galhos, a água, as pedras, os animais, as flores. Faltam palavras, sobram sensações.

“Se assim está ordenado, por que reclamamos tanto das chuvas, ventos e granizos? Não seriam os humanos, insanos intrusos nesse ciclo maravilhoso que a natureza põe em movimento? Nas enchentes, não estariam os rios fazendo uma limpeza geral em seus leitos para depurá-los de nosso mal feito, renovando as águas fétidas lançadas em si pelos homens? Por que não aceitar que a natureza continue ditando as regras, no jogo da vida? Por que nos distanciamos tanto dessa ordem universal, criando um mundo paralelo, antropocêntrico, predador de outros mundos? Teríamos perdido a nossa racionalidade original que estava integrada aos mistérios cósmicos e com ele interagia harmoniosamente?”. Este é um trecho do texto Arranjos da Natureza.

Cada história contada termina de forma satisfatória. Algumas fazem constatações para a vida, às vezes, relacionando fatos passados com o mundo atual. É possível absorver dicas e conselhos nas linhas do Tecendo a Vida (aí está a maravilha da leitura).

Dirceu é natural de Tucunduva. Com 14 anos, ingressou no Seminário do Sagrado Coração de Jesus, em Corupá, Santa Catarina. Mudou-se para Santiago em 1983. Foi em 1984 que surgiu a oportunidade de atuar na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIS).

Projeto editorial da Oliveira Casa Editorial, o livro contém 107 páginas e pode ser adquirido no Me Gusta, em frente à pracinha de brinquedos, em Santiago. O prefácio é do renomado professor Jorge Luiz da Cunha. 

Conversei com o autor sobre o livro: “Fico muito feliz que você gostou da leitura. Este retorno é importantíssimo para quem escreve”.

Colocar histórias no papel é uma forma de se autoconhecer. É a chance de relembrar momentos, sentir saudade, pensar no presente, lembrar das pessoas que por nós passaram. Algumas histórias, que estavam em uma gaveta bem guardada da nossa cabeça, podem parar nas mãos de quem nem nos conhece ou jamais imaginara termos vivido aquilo. Aí está uma forma de se identificar com o outro, conectar-se, tecer a vida.




sábado, 15 de dezembro de 2018

Não me falta mais nada, nesta calma alvorada, para andar por aí


Parei de trabalhar com carteira assinada (sim, porque a gente segue trabalhando) em agosto deste ano. Na Rádio da URI, além de programar as músicas, fazia o programa Conexão 106, ao vivo, de segunda a sexta, com notícias da universidade; apresentava o Cultura tá na Mesa toda sexta-feira, um programa de entrevista; fazia o Redação 106 de segunda a sexta, em duas edições. Para quem conhece rádio, ter esta rotina significa uma coisa: correr. Porque, aliado a isso, tinha vários outros afazeres no setor. Mas, e daí, o que fazer quando esta rotina muda? Ora, pedi um quadro à Rádio Santiago, o Compartilha, o qual foi muito aceito pela dona Eda e Cris.

Comecei em outubro, “depois das eleições do primeiro turno”, pois, a correria com as inserções políticas estava muito grande. O quadro busca falar de comunicação e em como as redes sociais mexem com nosso cotidiano, além de destacar algo que teve repercussão ao longo da semana. Já falamos de depressão; ENEM; whatsapp; Black Friday; redes sociais mais utilizadas; proteção aos animais; o câncer de mama; feira do livro; criatividade; comunicação colaborativa. Ele vai ao ar sábado às 11h30min.

Na sexta-feira (14), houve a confraternização da emissora. Ambiente acolhedor, humano e de felicidade. Equipe que se dedica, ama o que faz, valoriza o detalhe e faz da amizade combustível diário. Isso se traduz em uma empresa consagrada, desenvolvida e de grande penetração no mercado e na vida das pessoas.

Voltando ao quadro Compartilha, digo que estou adorando, pois acabei conhecendo pessoas novas (ao fazer as entrevistas) e dedico-me a temas/assuntos que enriquecem a vida da gente e a forma de trabalhar.



Abaixo, alguns momentos e Matheus Nunes, cantando Manhãs!






segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Dica de passeio na região | Jardim das Esculturas


Descrever o Jardim das Esculturas seria uma atitude muito pequena perto da grandeza do lugar. Fica em São João dos Mellos, interior de Júlio de Castilhos, região central do Estado. Fundado em 2005, conta com mais de 600 esculturas de Rogério Bertoldo. No espaço, são encontradas trilhas; a montanha do silêncio; as esculturas; locais de descanso e existe a oportunidade de assistir à confecção das peças.

Lá pelo ano de 2008 ou 2009, não lembro direito, estive no espaço junto do então vereador Arnaldo Bertoldo, tio de Rogério. Eu trabalhava na Rádio 14 de Julho. De lá para cá, muita coisa mudou: o espaço é hoje um ponto turístico, recebendo pessoas de várias cidades. Fiquei surpreendida pela tamanha transformação. Já era lindo quando eu fui, imagine agora.

É um lugar de luz: onde os raios do sol iluminam o dia de forma diferente. O céu azul encosta no mato. A calmaria e o silêncio acalmam o coração. A trilha, com água e pontes, é bálsamo para a alma. A montanha do silêncio soa como um apelo diante do mundo conturbado e barulhento, o mundo onde quem grita mais é que leva. A natureza preservada vai de encontro à crença de empresários que não enxergam árvores, mas o lucro que será obtido ao derrubá-las.

O caminho até o jardim também vale a pena. Do asfalto até o local é preciso andar um bom pouco, mas o legal disso, é que a expectativa de chegar só vai aumentando. A vila de São João dos Mellos é linda: um pedacinho de paz na imensidão do universo.

Rogério falou conosco. Estava fazendo uma escultura para a entrada da localidade. Também, tem uma encomenda para entregar, esta será feita na madeira (a maioria das esculturas é em pedra: arenito, pedra-sabão, etc.). Ele disse que fazer a escultura em pedra é mais rápido (algumas ele faz em até um dia), já a madeira leva muito mais tempo. Falei da estátua do Aureliano, em Santiago, ele que fez!

As obras dispostas pelo jardim, mostram que é possível produzir e preservar. A arte é isso: imersão, criação, produção, preservação, conscientização. Precisamos valorizar a luz e colocá-la em nosso caminho, para que guie nossas profissões dentro deste propósito: o de trabalhar e progredir, amando os seres vivos. 

Somos “casca”, isso é uma passagem. Nós iremos, as esculturas permanecerão, então, que saibamos cuidar bem da viagem.



Entrada para São João dos Mellos


Entrando na trilha

Aqui é a chegada ao jardim

Na trilha: curve-se à natureza




segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Você sabia que na Sanar tem acompanhamento farmacoterapêutico?


O slogan “Onde tem saúde tem Sanar” tem tudo a ver, quer saber por quê?
A Sanar, inaugurada no ano de 2014 em Santiago, trouxe muitas novidades à população, especialmente, quanto à promoção da saúde, pauta importante na área da saúde nas esferas pública e privada nos dias atuais.
Integrante da rede Sanar Farmácias, mais do que cosméticos, perfumaria e medicamentos, o estabelecimento, que tem na coordenação a empresária Loana Sagrilo Bochi, farmacêutica, também é a farmácia-escola da URI Santiago. Desta forma, os acadêmicos realizam estágios no espaço. 
A farmácia oferece alguns serviços, como:
- Acompanhamento farmacoterapêutico com clientes, uma vez na semana. Assim, os profissionais fazem aferição da pressão arterial e testes de glicose gratuitos, para acompanhamento destes índices e monitoramento do tratamento;
- Verificação de temperatura corporal;
- Colocação de brincos;
- Aplicação de medicamentos injetáveis, entre outros serviços.
A Sanar está situada em dois endereços:
- Bento Gonçalves, 1118, telefone 3251 0157 (filial).
- Osvaldo Aranha, 535, telefone 3251 0553 (matriz).

Abaixo, alguns momentos "Sanar" para você:










 


Ideias!